algumas

histórias

japonesas

e coisas

do folclore

Fernando Santiago dos Santos,

baseado em várias fontes

 

 

 

AGRADECIMENTOS

Gostaria de agradecer enormemente à série de livros didáticos Nippongo ("Língua Japonesa"), sem a qual não seria possível escrever estas histórias, que foram reproduzidas seguindo fielmente o original em japonês.

Gostaria também de mencionar a obra de Susumu Fukuma, Japanese for Brazilians ("Japonês para brasileiros") e o maravilhoso livro Fábulas de Esopo, da Companhia das Letrinhas, de 1994.

Por último, mas não menos grato, faço menção in memoriam ao meu primeiro professor de japonês, "sensei" Miyahara, que levou-me, com zelo e carinho, aos primeiros passos rumo ao estudo dessa língua fantástica e às suas maravilhosas histórias de moral e devoção.

 

 

INTRODUÇÃO

Quando li as histórias originais em japonês, já há algum tempo, logo veio-me à mente uma idéia que tornou-se realidade: traduzir todas essas histórias para o inglês. O sonho tornou-se realidade e a primeira tradução japonês-inglês completou-se em 06 de junho de 1994. Naquela época, sabia que uma tarefa desse porte implicaria em grandes e minuciosos esforços, já que os originais estavam escritos em linguagem poética; sabia, também, que muitos nomes japoneses não seriam traduzidos para o inglês (e realmente isso ocorreu). O trabalho, felizmente, veio à tona e foram feitas poucas correções após a versão original. Agora, um ano e alguns meses após a primeira versão em inglês, resolvi fazer a versão em português.

A língua japonesa é peculiar em muitos sentidos. Embora tenha herdado seu sistema escrito dos chineses, suas bases lexicográficas e sua pronúncia permaneceram inalteradas. A língua é o que poderíamos classificar como sendo "poética". Este fato é de extrema relevância quando se tenta fazer uma tradução, especialmente a línguas pouco flexíveis como o português. Desta forma, os contos número dois, número quatro e número seis apresentam nesta versão nomes japoneses e nenhuma tradução.

Alguns contos podem parecer simplórios ou até mesmo tolos para algumas pessoas. A cultura oriental — e seu modo de ver a realidade — é muito diversa da nossa; e a curiosidade gerada em nós, cidadãos ocidentais, pelo modo de pensar e agir desses povos minuciosamente misteriosos faz-nos procurar fontes básicas para o conhecimento literário. Esta foi uma das razões pelas quais decidi-me a escrever esta versão: fornecer algumas noções das histórias e dos contos que circulam por lá, nas terras do Sol Nascente, que influenciam a vida dos pequenos alunos do primário e que recheiam as prateleiras dos grandes e doutos escritores japoneses.

Quando escrevi "algumas noções" referia-me ao meu objetivo de trazer ao leitor um pequeno apanhado de contos com os quais o leitor vai poder pensar e descobrir mais um pouco a filosofia de vida desse povo filosófico por natureza. Selecionei, dentre os contos que li, dez deles; talvez um ou dois sejam do seu conhecimento.

Muita gente acha que chineses e japoneses têm maneiras de pensar idênticas; tal afirmação advém do desconhecimento das duas culturas. Os chineses invariavelmente levam o leitor a meditar profundamente sobre um determinado assunto, que é apresentado sob fortes ensinamentos quase catedráticos; seus vizinhos japoneses, por outro lado, aprenderam a trabalhar questões de moral e simbolismos de vida através da captação do carpe diem do cotidiano, como o respingar da chuva, o cantar de uma cigarra, o perfume de flores-de-cerejeira. Assim, sua literatura é rica em linguagem poética, repleta de símbolos e personagens da natureza. Os contos surgiram como a forma genuína de reprodução desta filosofia milenar.

O conto número um recebeu nesta versão o nome de As bodas do ratinho. É um conto típico das crianças em idade escolar, e possivelmente foi escrito em meados do século passado, durante a Restauração Meiji.

O segundo conto não deveria ser denominado "conto", mas própria e devidamente chamado de "lenda". Na verdade é uma das lendas mais conhecidas no Japão. O nome que adotei em português foi O omusubi rolante. O título original japonês é "Omusubi kororin". Não consegui achar uma boa tradução para a palavra omusubi, que é um bolinho de arroz em forma triangular. Assim, achei melhor manter o nome omusubi ao invés de fazer uma tradução forçada do tipo "O bolinho de arroz rolante". A lenda provavelmente inclui personagens da Idade Média japonesa, aqueles tempos em que imperavam os daimyo (lordes feudais, suseranos de terras), os samurai (vassalos e fiéis guardas dos senhores feudais) e os shogun (principais governantes das terras, suseranos superiores na hierarquia).

O conto número três é seguramente um dos mais conhecidos no Japão e nas terras do ocidente. O título é O lobo e o pastor (ou também uma versão mais livre do tipo O menino do "Olha o lobo"). Ao que tudo indica, seu autor foi o célebre escritor grego Isopo (Esopo?), comentado mais adiante. Na versão original japonesa este conto ganha uma dramaticidade e moralismo muito maiores.

O conto número quatro é praticamente desconhecido nosso. Gonbeesan (ou, numa tradução mais literal, O velhinho Gonbee) era, de acordo com a lenda, um servo medieval que gostava de passar seu tempo caçando patos-selvagens ao redor do lago do feudo. Pode ser que tenha surgido durante a Dinastia Heian (1200-1600 d.C.). Possui um fundo moral muito intenso.

O veado e a onça (ou A corça e a jaguatirica) é um conto japonês muito famoso. É seguramente um dos favoritos das crianças japonesas em idade escolar, junto ao conto As bodas do ratinho.

Ao conto número seis não foi dada tradução nem em inglês nem em português. O título japonês original é Kaguyahime e assim foi mantido. Houve sugestões de traduzi-lo como A princesa da Lua ou mesmo A princesa do reino da Lua. Pessoalmente, achei tais traduções pouco convincentes; portanto, preferi simplesmente manter Kaguyahime. É mais um dos contos que provavelmente adveio das histórias da Dinastia Heian, e está repleto de figuras alegóricas, misticismo e mistério.

O conto número sete é amplamente passado de geração em geração, e seu título é bastante expressivo: O estranho tecido da garça. Como tantos outros contos, este também toma como pano-de-fundo o mistério das brumas medievais, particularmente as da Dinastia Heian. Este conto encerra um conjunto de crenças e um misticismo muito exacerbado.

A seguir encontramos dois contos, muito significativos em termos de lição moral: O corvo e o pavão (ou também A gralha e o faisão) [a] e O morcego [b]. Os dois contos, que na verdade são fábulas (histórias contadas por animais), foram escritos por um escravo grego, já mencionado, de nome Isopu (ou Esopu?), que era originário da Frígia (região da Antiga Grécia) e que viveu na casa dos Iadmon durante o séc. V a.C. Suas fábulas foram traduzidas para diversos países. Em japonês estes dois contos ganharam poesia inigualável, especialmente o primeiro [a], que é permeado por onomatopéias e frases de ironia.

O burro e o ferreiro é um conto relativamente curto, e foi provavelmente escrito durante a Restauração Meiji (meados do séc. XIX). Embora divertido e bem-humorado, muita gente acha-o sem vida e tolo.

O último conto, O vendedor de peras, pode não ser verdadeiramente japonês, mas originário de algum escritor que viveu durante uma das muitas dinastias da Idade Média na China. Algumas adaptações posteriores ao conto tornaram-no japonês. Representa o ponto alto deste livro.

Antes do leitor começar a ler os contos, as lendas e as fábulas que fazem a cultura dos nossos irmãos lá do Oriente, deixo claro que esta versão em português segue estritamente o original em japonês, sem quaisquer comentários ou opiniões pessoais. Boa leitura!

São Vicente, 04 de outubro de 1995.

 

Os contos e as lendas

1. As bodas do ratinho

Era uma vez um bebê da senhora Rato. Era uma ratinha que crescia rápido, e havia nascido em bom lar.

O tempo passava e a ratinha tornava-se cada vez mais bonita. Seus pais estavam muito felizes com ela e não conseguiam esconder a alegria que sentiam.

Um dia o senhor Rato disse, "Quero que minha filha ratinha fique noiva de algum pretendente. O noivo, entretanto, tem que ser o mais importante do mundo, e não qualquer um". Esta idéia não saía da cabeça do senhor Rato.

Depois de algum tempo, o senhor Rato decidiu conversar com o Sol. O senhor Rato chegara à conclusão de que o Sol era o mais importante no mundo. Estava aguardando impacientemente o momento de falar com o Astro-Rei.

"Rei Sol, ó rei, tenho uma bela ratinha, filha minha, em casa. Meu desejo, do fundo do coração, é que ela seja tua noiva e tu sejas seu marido. Considero-te o mais importante no mundo. Por favor, aceita minha filha como tua noiva e casa-te com ela", dizia o senhor Rato, reverenciando com respeito o Sol.

"Estou realmente grato", retrucou o Sol, "mas infelizmente tenho que recusar tua proposta. Não sou o mais importante no mundo. Há alguém mais forte do que eu".

Senhor Rato ficou surpreso com a afirmação. "De quem tu estás falando?"

"Esse que é mais forte do que eu é o senhor Nuvem", respondeu o Sol. "Mesmo que eu lance fortes raios sobre a terra, o senhor Nuvem os encobre toda vez que assim o deseja. Não posso fazer nada com ele. Ele é, com certeza, mais importante do que eu".

Assim que ouviu isso, o senhor Rato decidiu conversar com o senhor Nuvem. E foi atrás dele.

"Sei que tu és o mais importante no mundo. Por favor, casa com minha filha. Gostaria que ela fosse tua noiva", pedia mais uma vez o senhor Rato ao senhor Nuvem.

Novamente o senhor Rato recebeu uma resposta negativa. "Há um que é mais forte do que eu: é o senhor Vento", dizia com delicadeza o senhor Nuvem.

E mais uma vez lá foi o senhor Rato atrás do senhor Vento. Incansavelmente repetia:

"Tu és o mais importante no mundo. Por favor, casa-te com minha filha".

Como era de se esperar, o senhor Vento também recusou o convite. "Tu não estás certo. O senhor Parede é mais importante do que eu. Mesmo que eu sopre com toda força, incessantemente, o senhor Parede está lá, de pé, nada sofrendo. Não posso fazer nada com ele".

E assim continuava o senhor Rato, firme em seus pensamentos. Procurou o senhor Parede e fez-lhe o mesmo convite. Novamente houve recusa e o senhor Parede explicou ao senhor Rato:

"O rato é o mais importante no mundo. Não posso detê-lo quando ele decide roer minha parede e fazer buracos em mim".

Depois de tanto vagar em busca do mais importante noivo para sua filha, o senhor Rato teve de aceitar a idéia de ter um genro rato. Finalmente encontrou o noivo ideal para a ratinha e as bodas de casamento ocorreram. O casal de ratinhos viveu feliz para sempre.

2. O omusubi rolante

Um dia, um velho servo feudal foi às montanhas para cortar lenha. Era o meio-dia. O velho servo estava com fome e começou a comer os omusubi que ele havia carregado no bornal.

De repente, um dos omusubi caiu do bornal e rolou ladeira abaixo. Acabou entrando no buraco que existia na raiz de uma das árvores.

"Omusubi kororin sutonton... envie-nos mais omusubi!" Eram vozes que, surpreendentemente, o velho servo ouviu do interior do buraco.

"Estranho", pensou o velhinho, "muito estranho". Decidiu dar uma olhada no buraco; mas como o buraco estava completamente escuro, não pôde ver coisa alguma. Novamente pensou como tudo aquilo era estranho.

O velhinho resolveu deixar mais um omusubi cair no buraco para ver se aquela música viria de dentro novamente. Assustado, ouviu a mesma música: "Omusubi kororin sutonton... envie-nos mais omusubi!"

O velhinho riu até cair e disse, "Engraçado! É engraçado!!!", e pela terceira vez jogou mais um omusubi no buraco.

"Omusubi kororin sutonton... envie-nos mais omusubi!"

"Engraçado, engraçado!", dizia o velho servo, pulando de alegria como uma criança. Pensou consigo mesmo: "se eu pular no buraco, o que será que eles cantarão?" Logo em seguida o velhinho rolava para dentro do buraco.

"Ojiisan kororin sutonton... envie-nos mais velhinhos!"

Deus do céu! Nem acreditava no que via! O interior do buraco era um palácio, e o teto e paredes brilhavam magnificamente.

O velhinho estava atônito. Seus olhos estavam esbugalhados, e olhava para todos os lados.

E, para completar sua surpresa, havia coelhos — muitos, muitos! — dentro do buraco.

"Vovô, seja bem-vindo em casa", cumprimentavam o velho servo todos os coelhos do buraco.

Havia um coelho maior na frente de todos os outros coelhos. Ele disse, "Este é o País dos Coelhos. Por favor, fique à vontade e divirta-se".

Muitos coelhos trouxeram comidas deliciosas para o velho servo. E dançavam, e cantavam. Parecia que vivam em completa harmonia e gozo.

O velho servo começou a dançar e cantar com os coelhos. Estava se divertindo como nunca o fizera antes.

A noite estava despontando no horizonte e o velhinho disse aos coelhos, "Estou indo embora". O coelho maior trouxe alguns omusubi para ele. "Este é o omusubi do País dos Coelhos. É muito delicioso. Aceite este omusubi como um presente do nosso país".

O velho servo agradeceu-lhe, cumprimentou a todos os coelhos e voltou para casa. Ele nunca havia provado um omusubi tão gostoso como aquele.

3. O lobo e o pastor (ou O menino do "Olha o lobo")

Havia um pequeno pastor de rebanhos que vivia em uma vila perto de Hondo. Toda manhã ele tinha a obrigação de levar o rebanho de ovelhas para uma campina próxima à vila. Esta tarefa tinha que ser feita somente por ele, sem a ajuda de ninguém.

Um dia, já cansado de ficar sozinho e achando que seu trabalho era deveras chato, decidiu fazer algo diferente. Começou a gritar:

— Socorro, socorro! Tem um lobo aqui! Socorro!!!

Muitos homens que estavam trabalhando na vila escutaram seus gritos e foram à campina. Procuraram pelo lobo em todos os lugares ao redor, mas nem um sinal sequer do bicho foi visto.

Depois de procurar bastante, os homens voltaram à vila, com um pressentimento de que haviam sido ludibriados.

Enquanto os homens procuravam pelo lobo, o pastorzinho havia se escondido atrás de uma árvore grande.

Como não havia lobo a ser encontrado, o pastorzinho riu-se da situação:

— Isso é algo realmente engraçado!, e batia palmas, pulando de alegria.

Quatro dias se passaram e mais uma vez os homens da vila ouviram os gritos do pastorzinho.

— Socorro, socorro! Tem um lobo aqui! Socorro!!!

O menino gritava desesperadamente, e os homens correram para a campina. E, mais uma vez, passaram a tarde procurando o lobo, sem encontrarem um vestígio sequer. Finalmente entenderam que o menino estava pregando uma peça e decidiram não dar ouvidos aos seus gritos de socorro da próxima vez.

No dia seguinte o menino levou o rebanho para a campina. Mas, oh! agora era um lobo de verdade que estava vindo! Era enorme e parecia faminto.

O menino começou a gritar, a todo pulmão:

— Socorro! O lobo de verdade está aqui! Acreditem! Socorro!!!

O menino não sabia o quê fazer.

Os homens da vila, entretanto, diziam entre si, "desta vez ele não vai pregar suas peças na gente de novo. Aquele danado... ninguém vai até lá!"

E o lobo estava lá. Mas ninguém foi ajudar o menino.

4. Gonbeesan

Esta é uma história bem antiga. Em uma pequena vila havia um servo velho de nome Gonbeesan. Perto de sua casinha havia um lago, desses meio pantanosos, onde ele costumava observar a chegada de vários patos-selvagens que vinham do norte, durante o outono.

Um dia, o velho servo decidiu pegar alguns patos-selvagens, já que não estava trabalhando com o arado. Desde aquele dia, começou a colocar armadilhas em alguns pontos do lago e conseguia pegar um pato a cada manhã.

Logo um pensamento veio-lhe à cabeça:

"Pego um pato todos os dias, e somente um. Isso é chato! Quero pegar cem patos! Isso: cem deles! Aí então poderei descansar os outros noventa e nove dias. Muito bem, é isso que farei!"

Gonbeesan trabalhou sem parar fazendo suas armadilhas a fim de realizar seu plano. Até que finalmente conseguiu montar cem armadilhas. Poderia, com elas, aprisionar um pato-selvagem em cada uma. Arranjou todas as armadilhas em fileira, fez laços apertados e esperou pela chegada dos patos.

A madrugada chegou rapidamente. Centenas de patos-selvagens estavam chegando ao lago, e, um a um, acabaram sendo presos pelas armadilhas. Gonbeesan estava radiante de alegria, e começou logo a contar os patos que tinha aprisionado. Pôde contar noventa e nove, todos eles imóveis, presos às armadilhas.

— Muito bem, muito bem... somente mais um e terei cem deles!, falou sozinho o velho, que ficou esperando pelo último pato-selvagem.

O pato esperado, entretanto, não chegou. Os outros patos já estavam resmungando por causa dos laços das armadilhas, e a aurora já despontava no horizonte.

Com os primeiros raios de sol, de repente todos os patos começaram a voar ao mesmo tempo. Noventa e nove patos voando, todos presos à mesma corda! Faziam um esforço enorme para levantar vôo, e, sem saber como, Gonbeesan caiu em uma das armadilhas e foi levado ao céu junto com os outros patos.

Os patos estavam voando para o sul. Gonbeesan era o último da fila, preso pelo pé, e estava com medo de cair; os patos voavam para o alto e mais para o alto, sobre as nuvens e sobre os montes. Olhou para baixo e viu que as casas estavam ficando cada vez menores. Então começou a gritar, "Socorro! Alguém me ajude! Quero descer!"

Os patos, por outro lado, pareciam não escutar o que ele dizia e continuavam a subir.

De repente, a corda que estava prendendo o pé de Gonbeesan rompeu-se. Ele estava caindo nuvens abaixo, em direção às verdes pastagens lá embaixo.

Mas... meu Deus! seu corpo estava ficando menor e cada vez menor! Surgiram asas no lugar de seus braços e um bico no lugar de sua boca! Gonbeesan havia se tornado um pato-selvagem! Agora ele podia voar com os outros, e foi o que fez.

Estava mais do que surpreso com tal mudança. Depois de voar algum tempo, sentiu fome e teve vontade de descer para comer algo. Como os outros patos, Gonbeesan procurava um lugar para pousar e procurar comida. Viu, finalmente, um lago pantanoso e decidiu dar uma esticada até lá.

Havia muitos peixes nadando logo abaixo a superfície da água. Agora ele podia matar a sede e comer alguns peixinhos.

Alguma coisa, porém, estava segurando seus pés. Voltou-se rapidamente para baixo e viu que estava preso em uma armadilha! A armadilha era semelhante àquelas que ele fazia antes. Não podia mover as pernas. Estava preso!

Uma tristeza profunda invadiu sua alma e pensou, "fui muito mau quando fiz aquilo com os patos-selvagens. Agora entendo como fui mau com eles!" Lágrimas começaram a escorrer pela face até o bico.

Algumas lágrimas desceram até a corda que estava prendendo seu pé, molhando-a. Curiosamente, a corda se soltou e seu corpo cresceu novamente. Agora ele era, milagrosamente, Gonbeesan, o velho servo feudal!

Desde esse dia Gonbeesan decidiu parar de aprisionar os patos-selvagens e prometeu ser um homem de boas-ações para o resto de sua vida.

5. O veado e a onça (ou A corça e a jaguatirica)

Havia um veadinho que morava nas florestas. Um dia decidiu construir sua própria casa.

Andava de um lado para o outro, procurando o lugar apropriado para a casa. Até que conseguiu achar o lugar adequado. Era um lugar muito agradável. À noite, uma brisa vinha de longe e havia um riachinho por perto.

"É um lugar realmente bom. Vou construir minha cada aqui", pensava.

E, com esse pensamento em mente, correu para buscar lenha e alguns galhos de árvore. A noite estava chegando e ele queria deixar a madeira lá.

Na floresta havia também uma onça muito grande. Um dia, ela decidiu construir sua própria casa.

Andou muito pela floresta e finalmente achou o lugar. Era muito agradável.

Mas a onça não sabia que esse lugar ficava bem em frente ao lugar que o veadinho havia escolhido. A onça pensou, "muito bom lugar! E, olhem só: há galhos de árvore, areia e lenha aqui. Não sei quem carregou tudo isto, mas... obrigado assim mesmo!" E carregou a lenha, os galhos e a areia para construir a base da casa.

A madrugada estava acabando e a onça foi embora.

O veadinho voltou para o lugar com o raiar do sol. Achou estranho encontrar a lenha, a areia e os galhos em um lugar um pouco diferente daquele onde ele havia colocado, mas pensou consigo mesmo, "obrigado, amigo invisível, que já adiantou o trabalho para mim". E o veadinho levantou as paredes da casa, e fez as janelas. Foi embora ao cair da noite.

Assim que o veadinho saiu a onça chegou. "Maravilhoso! Vim para construir as paredes da casa mas já estão prontas! Obrigada, querido amigo, que está me ajudando na construção da minha casa!" E, assim, a onça completou o teto e o telhado da casa.

Quando a madrugada ía alta, vendo que a casa já estava quase pronta, a onça foi embora mais uma vez.

E, como sempre, o veadinho chegou ao local assim que o sol deu seu bom-dia. Ficou extremamente surpreso ao ver o teto e o telhado prontos. "Há alguém me ajudando nesta casa", pensava, "e está ficando muito boa. Hoje vou trabalhar bastante e a casa ficará pronta!" E o veadinho trabalhou o dia inteiro.

Trabalhou tanto e ainda sobrou tempo para pintar as paredes, as portas e as janelas. A casa estava pronta, finalmente! Entusiasmado, entrou na casa e foi tirar uma soneca.

A onça voltou à casa quando a noite chegou. Ficou alegre como nunca assim que viu a casa pronta. "Obrigada a você, amigo invisível, que tem me ajudado a construir esta casa!", era o que pensava a onça o tempo todo.

A onça entrou na casa, feliz da vida.

O quê? Havia alguém dormindo na cama. A onça gritou, furiosa:

— Quem é você, estranho? Esta é a minha casa. Caia fora, já!

O veadinho levantou-se rapidamente; ele não estava com medo da onça, e respondeu-lhe, com força:

— E você, quem é VOCÊ? Esta é a MINHA casa. Dê o fora, agora!

A onça ficou brava pra valer:

— Esta casa é minha! Eu mesma a construí!

O veadinho não se intimidava frente aos dentes da onça:

— Esta casa é minha. Minha, entendeu?

E os dois começaram a discutir. Gritaram e gritaram de manhã à noite. Depois de tanto brigarem, decidiram dividir a casa e morarem juntos. Como a noite já estava alta e eles estavam exaustos, foram se deitar imediatamente.

O veadinho, entretanto, não conseguia dormir. Todas as vezes que se virava para o lado, tentando achar uma posição mais confortável, as garras da onça acabavam machucando suas costas.

A onça, da mesma forma, não conseguia pregar o olho um só minuto, porque os chifres do veadinho cutucavam seu lombo.

A noite foi terrível para os dois moradores, que não tiveram um momento de paz e sono.

No dia seguinte, o veadinho e a onça começaram a discutir novamente e corriam um atrás do outro, sem cessar.

6. Kaguyahime

Durante a dinastia Heian, há muito tempo, havia um velho servo feudal que tinha o apelido de "O velho cortador de lenha".

Um dia, como de costume, o velho foi às montanhas para cortar lenha. Pensou consigo mesmo:

— Hoje acharei uma madeira diferente para cortar.

Começou a olhar ao redor.

De repente, seus olhos pararam em frente a um broto de bambu que estava brilhando como ouro. Tomou o machado e cortou o broto de bambu. Surpreso, viu uma pequenina garota dentro da madeira.

O homem colocou a menina nas mãos e observava-a, atônito. "Deus seja louvado! Esta menina é certamente um presente de Deus para nós! Não temos filhos, e ela é muito bonita. Vou mostrá-la para minha esposa. Ela ficará feliz!"

O velho voltou para casa e mostrou a menina para sua senhora. "Puxa! Como é linda!", falava sem parar a esposa do velhinho, que não conseguia esconder a alegria.

Como a menina era realmente muito pequena, o velhinho e sua esposa resolveram colocá-la em uma caixa e dar-lhe toda atenção do mundo.

Depois que ele encontrou a menina no broto de bambu, todas as vezes em que cortava lenha achava algum artigo de ouro dentro da madeira. Estava ficando rico.

E a menina crescia rapidamente. Depois de três meses, alcançou o tamanho de um adulto normal. Era realmente muito bonita, tinha um rosto delicado e olhos que brilhavam como o metal polido. A casa ficou repleta da sua alegria.

O velho e sua esposa disseram:

— Serás chamada de Kaguyahime.

Os vizinhos da aldeia vieram para vê-la, e diziam:

— Como é linda! Prazer em conhecê-la, Kaguyahime!

— E também é muito inteligente, e simpática!

Os elogios continuaram por muito tempo, e todo mundo queria ver Kaguyahime. Todos queriam vê-la e um amontoado de gente ficou esperando na porta da casa do velho cortador de lenha.

Kaguyahime, entretanto, disse ao velho:

— Vovô, eu não sou essa pessoa que vocês estão falando... por favor, gostaria de ficar sozinha, aqui em casa, sem ver esse povo todo...

Mas já era tarde: embora Kaguyahime não quisesse ver ninguém, o daimyo da província ficou sabendo das notícias e queria ver a garota. "Quero vê-la e descobrir se é realmente tão bela quanto falam", pensou consigo mesmo. E o daimyo deu a Kaguyahime um presente. Nem por isso Kaguyahime aceitou o convite do daimyo em visitá-lo no palácio.

Três anos haviam passado desde aquele dia em que o velho achou Kaguyahime no broto de bambu.

Nesse ano a primavera veio mais cedo. Kaguyahime olhava para a lua com um rosto aborrecido. Parecia estar profundamente triste.

O velho e sua esposa perguntaram-lhe um dia, "Estamos preocupados com você. Há algo errado? Por que esta feição tão aborrecida?" Kaguyahime apenas dizia, "Estou bem".

Coisas estranhas começaram a acontecer. Quando a lua cheia aparecia no céu, Kaguyahime cantava uma canção extremamente fúnebre. Acotovelava-se na janela e ficava lá horas a fio, olhando para a lua.

— Não sou deste mundo, disse Kaguyahime aos velhinhos, sou habitante do Reino da Lua. Nunca disse isto para ninguém antes. Hoje, porém, eles virão me buscar. Eles vêm da lua. É por isso que estava chorando e cantando. Devo dizer adeus hoje...

O velho cortador de lenha e sua esposa ficaram abalados com as palavras de Kaguyahime. Depois viram-na balbuciando palavras indecifráveis para o céu, certamente alguma oração ou algo parecido.

O velho correu para o palácio do daimyo e implorou ajuda. Depois de algumas palavras, o daimyo ordenou a alguns de seus fiéis samurai para protegerem Kaguyahime, acampando-se ao redor da casa.

A lua cheia aparecia novamente. A casa estava totalmente cercada. Os samurai carregavam espadas, arcos e flechas, e não havia um milímetro sequer da casa que não estivesse sendo vigiado.

Dentro da casa, o velho e sua esposa davam consolo a Kaguyahime, afagando sua cabeça e falando coisas agradáveis.

De repente, começaram a ouvir uma música suave. Criaturas semelhantes a anjos começaram a vir do céu, dentro de uma carruagem dourada.

Os soldados tentaram armar seus arcos, mas sua força física tinha ido embora, e não conseguiam abrir os olhos.

Enquanto a confusão estava armada do lado de fora, no interior da casa os velhinhos abraçavam Kaguyahime e cumprimentavam as criaturas semelhantes a anjos.

"Obrigado pela educação que vocês me deram nestes anos todos", disse Kaguyahime para os velhinhos, depois de notar que já não havia muito a ser feito, "e saibam que nunca esquecerei tudo o que vocês fizeram por mim. Todas as vezes que vocês olharem para a lua cheia, por favor lembrem-se de mim..."

Kaguyahime vestiu os finos trajes que as criaturas semelhantes a anjos haviam trazido para ela. Kaguyahime chorava muito.

Sem fazer um ruído sequer, a carruagem e as criaturas levaram Kaguyahime embora. Desapareceram no céu para sempre.

7. O estranho tecido da garça

Em épocas remotas, havia um vovô e uma vovó que moravam em um pequeno casebre perto de um celeiro antigo.

Certo dia nevava muito e era um dia congelante de inverno. O vovô havia subido às montanhas para cortar lenha com que alimentaria a lareira e o fogão. Quando cortou o primeiro galho, ouviu, de um arbusto próximo, um canto triste de dor de um pássaro. "O que será?", perguntou-se o vovô e foi logo tratando de ver o que era aquilo.

Surpreendentemente, era uma garça enorme que havia caído em uma armadilha. Estava sofrendo dores terríveis e tremulava suas asas em desespero.

"Ora, ora, coitada da garça!" O vovô rapidamente soltou o nó que havia na armadilha. A garça voou em seguida, olhando fixamente para o vovô.

Assim que chegou a casa, contou tudo para sua esposa. Ela ficou feliz e disse:

— Foi uma coisa muito boa que você fez para a garça.

Naquela noite, ouviram alguém bater à porta. O vovô abriu a porta e viu, na neve e no vento gélido, uma garota esguia completamente molhada.

— Deus do céu, o que você está fazendo aí fora nessa tempestade de neve?, perguntou com pressa o vovô, chocado com a cena.

— Eu estava viajando para o norte e tive de passar por Aomori. As estradas estão muito ruins e decidi parar. Por favor, senhor, poderia deixar-me dormir em seu celeiro esta noite?

— Coitada... claro que pode ficar, mas não no celeiro. Entre aqui em casa, entre...

O vovô e a vovó levaram a garota para perto da lareira e deram-lhe uma tigela de arroz quente.

— Qual é o seu nome?

— Tsuru (que quer dizer "garça").

— E seus pais?

— Papai e mamãe já não existem...

— Então você não tem família?

— Sou sozinha...

Os dois velhinhos ficaram com dó de Tsuru e prepararam uma cama para ela e deixaram-na dormir bastante.

A neve caía pesadamente e não parecia que ía parar tão cedo. Vovô e vovó disseram a Tsuru que era muito perigoso continuar a viagem para Aomori com aquele tempo ruim. Assim, conseguiram manter Tsuru com eles.

Tsuru era uma garota muito bonita, educada e agradável. Tinha um coração extremamente doce.

— Tsuru, gostaríamos que você fosse nossa neta. Você poderia?, perguntou um dia vovó para a moça.

— Oh, vovó, certamente gostaria muito de poder ficar com vocês... se vocês me derem somente um prato de sopa, já estarei mais do que grata...

Tsuru respondeu à pergunta com um sorriso aberto no rosto.

Agora os três moravam no casebre.

Muito tempo se passou desde que Tsuru tinha batido à porta naquela noite de tempestade. Um dia, ela disse ao vovô:

— Sei costurar e tecer. Se você me trouxer linha, tecerei um artigo bonito.

O vovô saiu à cidade para comprar linha e voltou com alguns carretéis para Tsuru.

— Obrigada, vovô. De agora em diante, ficarei aqui no quarto tecendo. Por favor, enquanto eu estiver tecendo, não espie pela porta para me ver trabalhando, está bem?

Tsuru entrou em seu quarto e começou a tecer.

kirikiritonkara kirikiriton

kirikiritonkara kirikiriton

Durante o dia inteiro vovô e vovó puderam ouvir o som de tecer que vinha do quarto onde estava Tsuru.

Três dias se passaram. Tsuru saiu do quarto e mostrou ao vovô e à vovó o tecido que havia feito.

— Este artigo é único no mundo. Leve-o, vovô, e venda-o por um preço alto.

Era realmente um artigo nunca antes visto! O vovô saiu rapidamente do casebre, decidido a mostrar o artigo ao daimyo da província e tentar vender-lhe o tecido.

O daimyo ficou surpreso com o quê via.

— Este artigo é novo aqui. Nunca vi coisa mais bonita antes...

E o daimyo acabou comprando o artigo por um preço bastante alto.

O vovô ficou feliz com a venda e voltou para seu casebre com as moedas que havia recebido no palácio. Vovó também ficou contente quando o vovô contou-lhe o preço do artigo que o daimyo pagara.

Mais uma vez Tsuru disse-lhes:

— Amanhã tecerei novamente. Por favor, não espiem para tentar ver-me trabalhando, está bem?

kirikiritonkara kirikiriton
kirikiritonkara kirikiriton

Vovô e vovó estavam ficando curiosos em saber como Tsuru tecia aquele artigo tão bonito. Por várias vezes quase não resistiram e já iam dar uma olhada para ver Tsuru tecendo, mas como se lembravam do pedido que ela havia feito, desistiam da idéia.

Três dias se passaram. Desta vez, porém, Tsuru não havia terminado de tecer ainda. O vovô e a vovó aproximaram-se do quarto para ouvi-la tecendo.

— Sei que vocês estão aí. Logo terminarei. Então o vovô poderá vender o artigo para o daimyo novamente.

E Tsuru continuou tecendo, sem parar, e nunca abria a porta.

Naquela noite, porém, vovô e vovó não conseguiam resistir a curiosidade de ver Tsuru tecendo. Encontraram uma pequena fresta na parede e olharam. Dentro do quarto, porém, não estava Tsuru tecendo: lá estava uma enorme garça! O pássaro tecia com o bico, e com as asas segurava o tecido. Vovô e vovó ficaram assustados e gritaram, "Deus do céu!"

Tsuru escutou o grito e seu corpo transformou-se na garota novamente. Agora já não era mais a garça.

— Somos dois velhos maus, somos maus..., dizia o vovô. Ele pedia desculpas para Tsuru.

— Aquela garça que o vovô ajudou a sair da armadilha, naquela noite terrível, era eu, começou a falar Tsuru, e então pensei em como poderia retribuir tal favor. Foi por isso que vim até aqui e dediquei-me aos tecidos. Agora, porém, que vocês conhecem minha personalidade verdadeira, já não posso mais ficar...

— Não, não, por favor fique. Você é nossa neta. Não se vá!

— É necessário agora. Devo dizer-lhes adeus. Espero que vocês sejam felizes, vovô e vovó. Até mais...

Dizendo estas palavras, Tsuru transformou-se novamente em uma garça. Suas asas cresceram rapidamente, e seu bico ia ficando cada vez mais vermelho.

— Espere, Tsuru, espere!!!

O vovô e a vovó tentaram segurá-la, mas Tsuru voou rápido e desapareceu no céu. Puderam apenas ouvir o cantar triste ecoando no ar gelado.

8. Lendas de Esopu

a) O corvo e o pavão (ou A gralha e o faisão)

Havia um corvo que vivia no jardim do palácio. Uma vez ele disse:

— Kaakaa, não quero mais ser corvo. Odeio corvos!

Abandonou todos os seus amigos corvos e começou a ficar sozinho no jardim.

No mesmo jardim havia um pavão.

— Que pena maravilhosa! Olhem, achei uma pena maravilhosa, gritou o corvo quando achou uma pena do pavão no chão. O corvo colocou a pena na cabeça e começou a andar pelo jardim, todo cheio de orgulho.

Os outro corvos logo iniciaram uma série de deboches:

— Kaakaa, tolo! Você sabe que não pode imitar um pavão. A pena logo vai cair da cabeça. Como você é ridículo, tentando parecer um pavão!

Os amigos do pavão também diziam entre si,

— Tolo corvo! O que pensa que é? É somente um corvo comum. Nunca será um pavão. A natureza o fez assim e é assim que vai ficar!

E então o corvo passou o resto de sua vida sozinho, sem falar com ninguém.

b) O morcego

Houve uma vez uma batalha entre os Animais e as Aves.

— Não podemos perder esta batalha! Vamos vencer!!!, gritavam o leão, o leopardo, o elefante e outros animais, que avançavam sem parar.

— Vamos descer rapidamente num vôo rasante e ganhar esta batalha!, gritava a águia para o falcão e para o gavião.

Enquanto a batalha ficava acirrada entre as aves e os animais, havia um morcego que não sabia para qual lado deveria se aliar. Estava confuso e não havia resolvido se deveria juntar-se aos animais ou às aves.

Depois de um tempo, o morcego decidiu alistar-se no time das Aves.

— Deixe-me lutar com vocês. Sabem, também tenho asas e vôo, portanto sou uma ave!

E o morcego juntou-se às Aves quanto estas estavam ganhando a batalha.

Logo o jogo mudou e os Animais começaram a ganhar a batalha. Estavam lutando bravamente, e o morcego pensou consigo mesmo: "Acho que deveria juntar-me aos Animais. Afinal de contas, sou um mamífero e, naturalmente, sou um animal. Não importa se tenho ou não asas... sou um mamífero!" E o morcego afastou-se das aves e começou a lutar junto aos animais.

Este vem-e-vai de acordo com a derrota ou vitória dos dois lados logo começou a perturbar os animais e as aves. Notaram que o morcego sempre estava lutando no time que estava ganhando. As aves, então, disseram:

— Não somos tolos, morceguinho. Sabemos que está sempre tentando ficar a salvo, lutando no time que ganha. Isto não está certo. Não gostamos de seres como você que não têm opinião e determinação. Tolo, você deve morar sozinho pelo resto de sua vida. Vá agora, morceguinho, e não fale com mais ninguém!

Depois disso, o morcego procurou um lugar onde poderia se esconder e nunca mais saiu durante o dia. É por isso que os morcegos preferem ficar escondidos enquanto há luz do sol, e só saem à noite.

9. O burro e o ferreiro

Um dia, um velho ferreiro e seu neto decidiram vender um burro que possuíam.

Assim que chegaram na primeira vila, de imediato as mulheres começaram a rir.

— Ah há há há há...!

— Por que estão rindo assim?, perguntou o ferreiro às mulheres.

Estavam rindo sem parar.

— Por quê? Claro que deveríamos rir, velhinho... você ainda não notou que este burro está andando sozinho? Ninguém nele! Que situação ridícula! Você não acha que seria mais interessante se alguém estivesse montado nele?

— Vocês estão certas. Certamente seria melhor!

O velho ferreiro pensou, "Elas estão certas". Então, dirigindo-se ao neto, disse:

— Ei, netinho, suba no burro.

O ferreiro e seu neto continuaram andando pelas ruas da vila. Alguns velhos começaram a juntar-se em torno dos dois viajantes e estavam falando alguma coisa. Quando o ferreiro e seu neto pararam de andar, as pessoas disseram:

— Veja isso! Um velho andando e o menino montado no burro. Esta juventude de hoje... hã! É por isso que não gosto desta educação moderna...

— Que garoto sem educação!

Assim, ouvindo as chacotas do povo, o ferreiro ordenou ao neto para descer e ele mesmo montou no burro.

Andando mais um pouco, encontraram uma mãe sua filha pequena. A mulher parou de repente e disse, indignada:

— Que é isso?! que homem malvado! Imaginem... deixar o menino andar enquanto ele está montado no burro! Seria melhor ver os dois no burro, então!

O ferreiro imediatamente disse ao neto:

— Ela certamente tem razão. Monte você também aqui no burro.

E, mais uma vez, as pessoas da vila começaram a juntar-se em volta do burro.

— Como vocês são malvados! Imaginem só: dois homens em um burro. Vocês não têm dó do animal, não? Coitado... olhem só!

"Provavelmente eles estão com a razão", pensava o ferreiro, "portanto devemos descer do burro".

O ferreiro fez como havia pensado. Desceram do burro e começaram a carregar o animal sobre suas costas: enquanto o ferreiro segurava as patas dianteiras do burro, seu neto carregava as posteriores. A cena era um tanto bizarra, porque de todos os lados da vila podia-se ver um burro sendo carregado por um velho e um menino. Imediatamente os habitantes da vila juntaram-se em volta dos dois viajantes e do burro, gritando, em tom de deboche, e dizendo que eles eram loucos.

— Vovô, se você continuar em frente vai achar a ponte que leva para fora de nossa vila. Louco, vovô louco!!!

— Olhe isto aqui, senhora! Um ferreiro e seu neto carregando um burro nas costas! Loucos... ah há há há!!!

O ferreiro e seu neto estavam completamente envergonhados. Caminharam rapidamente para a ponte, que se estendia sobre um rio profundo e caudaloso.

Quando estavam no meio da ponte, saindo da cidade, as cordas que seguravam as madeiras do assoalho da ponte partiram-se ao meio e o burro caiu no rio. O ferreiro e seu neto só puderam ver o burro ser carregado pelas correntezas em direção às cascatas.

10. O vendedor de peras

Era uma vez um vendedor de peras que viajava pelos caminhos da velha China. Tinha um carrinho-de-mão onde costumava colocar peras, que vendia por preços altos. Suas peras eram realmente saborosas e muito gostosas.

Um dia, o vendedor foi a uma vila. As pessoas ajuntavam-se ao redor do seu carrinho, a fim de comprar as peras. Entretanto, como os preços eram muito altos, ninguém estava comprando as frutas.

— Ei, vendedor, você não pode vender as peras com um preço mais baixo? Não posso comprá-las deste jeito.

— Vamos lá, vendedor. As peras estão muito caras. Não podemos comprá-las. Se você não abaixar o preço, as peras vão apodrecer!

— Não tem problema. O preço é este, e não vou vender uma pera sequer com preço mais barato, dizia o vendedor.

Um velho monge budista estava passando em frente ao carrinho-de-mão do vendedor. Pediu ao vendedor uma pera porque estava morrendo de sede e queria saciá-la.

— Por favor, dá-me uma pera. Não possuo uma moeda sequer, mas gostaria de molhar minha garganta e matar a sede.

— Tu deves estar louco, monge! Tu realmente achas que eu vou dar uma de minhas peras, de graça, depois de ter viajado quilômetros com este carrinho?

— Preciso de uma pera somente. Tu tens um monte delas no carrinho. Não vai causar-te nenhum prejuízo, vai?

— Que conversa fiada! Chega desta história! Tu estás pedindo à toa, porque não vou dar nenhuma de minhas peras. E, além do mais, estás bloqueando o caminho. Vai, monge, vai embora, vai embora, desaparece!!!

Agora as pessoas da vila já estavam ao redor do monge e do vendedor. A confusão estava armada, e o dono de uma loja, que estava dormindo, acordou com a baderna.

— Mas o que é que está havendo aqui? Ei, monge, tu queres uma pera? Pega, leva a pera, porque pago para ti. Agora, por favor, voltem ao trabalho e deixem-me dormir!!!

O monge pegou a pera e agradeceu ao dono da loja,

— Agora, disse o monge, vocês chineses verão como todo homem na face da terra tem o direito de comer uma fruta gratuitamente, não precisando depender de vendedores gananciosos. Sigam-me e observem.

O monge caminhou em direção a uma região desértica, vizinha à vila. O vendedor colocou seu carrinho de lado e também seguiu o monge e a multidão.

O monge e todos os habitantes finalmente chegaram no local desértico. O monge comeu a pera e segurou as sementes na palma-da-mão. Mostrou as sementes para os habitantes da vila e disse:

— Vocês verão uma pereira crescer aqui neste solo seco e serão capazes de comer peras, satisfazendo sua fome e sede, sem pagar nada!

O monge, então, ajoelhou-se no solo, fez um buraco na terra ressequida e colocou as sementes nele.

Depois de alguns segundos, as sementes começaram a germinar e plântulas da pereira saíam do chão. Uma pereira rapidamente cresceu, bem em frente da multidão assustada.

Curiosamente, a árvore continuou a crescer e flores apareceram. Centenas de flores começaram a se desenvolver e algumas já estavam frutificando. Depois de alguns minutos, todas as flores frutificaram e a árvore estava cheia de peras. Em cada galho pendiam saborosas e grandes peras, e mais uma vez o monge falou à multidão:

— Agora vocês podem comer peras sem pagar nada. São nossas peras. Vão agora e peguem quantas peras conseguirem carregar. Não fiquem com vergonha.

Ouvindo isso, todo mundo começou a subir na árvore e pegar as peras. O vendedor também estava lá. Conseguiu pegar somente algumas peras porque os garotos eram mais ágeis do que ele nos galhos.

— Que coisa estranha! O monge parece ser mágico... Não consigo entender!, dizia o vendedor, falando sozinho.

Depois de pegar suas poucas peras, o vendedor voltou ao lugar onde tinha guardado o carrinho. Mas, ei! estava completamente vazio! Nenhuma pera nele! Começou a gritar, furiosamente, "Maldito monge! Foi ele quem fez tudo isso! Não admito pessoas levando vantagem sobre mim! Mas ele vai pagar pelo que fez!" E resolveu voltar para a região desértica novamente, para a pereira.

Mas lá, no deserto, não havia pé-de-pera, não havia multidão, não havia monge. O vendedor estava sozinho, em meio a uma terra onde só o vento seco soprava...

NOTAS SOBRE VOCÁBULOS DE ORIGEM JAPONESA

l Há duas expressões, kororin sutonton, que resolvi traduzir livremente como "envie-nos mais". Na verdade, kororin é uma expressão onomatopéica que significa "rolando", "descendo". A palavra ojiisan significa "vovô" ou "vovozinho".

l Hondo é a maior ilha das quatro ilhas principais (as outras três são Hokkaido, Kyushu e Shikoku), onde está Tokyo. Também era o nome de uma cidade situada nessa ilha.

l Aomori é a província mais ao norte da ilha de Hondo, fazendo fronteira com a ilha de Hokkaido (mais ao norte). Aomori é muito fria e sempre neva no inverno.

l A palavra tsuru quer dizer literalmente "garça". No original japonês a garota que bateu à porta do casebre dos velhinhos identificou-se dando a si mesma o nome Tsuru.

l A expressão onomatopéica kirikiritonkara kirikiriton foi transcrita do original japonês e é uma tentativa literária de reproduzir o som oriundo da atividade de tecer.

l A expressão onomatopéica kaakaa foi transcrita do original japonês e é uma representação do som que os corvos produzem.